AVANT-GARDE WANNABE
Deteste a música que não tem qualidade, não a despreze. Pois como a tocamos e a cantamos muito mais apaixonadamente que a boa música, muito mais que esta, aquela encheu-se pouco a pouco dos sonhos e das lágrimas dos homens. Que ela seja, por isso, venerável. Seu lugar, nenhum na história da Arte, é imenso na história sentimental das sociedades. O respeito, e já não digo o amor, à música sem qualidade, não é somente uma forma disso que podemos chamar de caridade do bom gosto ou seu ceticismo, é ainda a consciência da importância do papel social da música. Quantas melodias sem valor algum aos olhos de um artista são, em grande parte, as confidentes eleitas pela multidão de jovens românticos e de apaixonadas. Quantos “anéis de ouro” e “Ah!, fique muito tempo adormecida”, cujos folhetos são virados a cada noite, tremendo, por mãos justamente célebres, e são encharcados, pelos mais belos olhos do mundo, de lágrimas cujo mestre mais puro invejaria o melancólico e voluptuoso tributo - confidentes engenhosas e inspiradas que enobrecem a tristeza e exaltam o sonho, e em troca do segredo ardente que lhes confiamos, dão-nos a inebriante ilusão da beleza. O povo, a burguesia, as forças armadas, a nobreza, assim como têm os mesmos carteiros, portadores da tristeza que os atinge ou da alegria que os preenche, têm os mesmos mensageiros invisíveis do amor, os mesmos confessores bem-amados: os maus músicos. Aquele refrão deplorável, que todo ouvido bem nascido e bem educado recusa-se imediatamente a ouvir, recebeu o tesouro de milhares de almas, guarda o segredo de milhares de vidas, para as quais foi inspiração viva, o consolo sempre pronto, sempre entreaberto sobre a estante do piano, a graça sonhadora e ideal. Tais arpejos, tal “entrada”, fizeram ressoar na alma de mais de um sonhador e de um apaixonado as harmonias do paraíso ou mesmo a voz da bem-amada. Um caderno de péssimas romanças, gasto por ter sido muito usado, deve-nos comover como um cemitério ou como uma vila. Que nos importa a falta de estilo das casas e que os túmulos desapareçam sob inscrições e ornamentos de mau gosto? Dessa poeira pode elevar-se, perante uma imaginação bastante simpática e respeitosa para refrear por um momento seus desprezos estéticos, a multidão das almas tendo em mãos o sonho ainda mais tenro que lhes fazia pressentir o outro mundo, e alegrar-se ou sofrer neste.
Elogio à música sem qualidade, PROUST em OS PRAZERES E OS DIAS. Uma declaração de amor às pessoas. Quem quiser ler em francês, acha aqui.
 
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