AVANT-GARDE WANNABE

Não lhes falta humor e são muito dados à pilhéria. Para começar, evitam por princípio, mesmo entre eles, dizer a verdade. São inacreditáveis mentirosos. De modo que é preciso muita paciência de controle e verificação para validar uma informação. Quando estávamos na Parima, cruzamos um caminho. O jovem que nos guiava, interrogado sobre sua destinação, respondeu que não sabia (ele havia percorrido esse caminho talvez umas cinqüenta vezes). “Por que és mentiroso?” — “Não sei.” Como eu perguntasse um dia o nome de uma ave, deram-me o termo que significa pênis, uma outra vez, tapir. Os jovens, em particular, adoram os ditos chisto-sos: “Vem conosco até o pomar. Vamos te enrabar!”. Em nossa viagem aos Patanawateri, Hebewe chama um garoto de uns doze anos: “Se me deixares te enrabar, te dou meu fuzil”. Todos ao redor dão gargalhadas. É um gracejo muito comum. Os jovens são muito impiedosos com os visitantes de sua idade. Por algum pretexto, levam-nos até o pomar e ali os dominam para desatar o cordão que prende o pênis, suprema humilhação. Brincadeira comum: você dorme inocentemente na rede, quando uma detonação o mergulha numa nuvem nauseabunda. Um índio veio peidar a dois ou três centímetros de seu rosto… 

- Pierre Clastres, Arqueologia da violência, 1977.

  1. churiana posted this