III. Os anjos têm pernas?
O homem teve a liberdade de escolher se queria que seus dois membros anteriores se transformassem em asa, como as aves, que lhe teriam possibilitado afinal desprender-se ainda mais da Terra. No entanto, ele compreendeu que esse desprendimento era só aparente e que devia portanto permanecer na Terra, se quisesse se mover livremente para as diferentes partes dela. Por isso ele preferiu, em vez de asas, com as quais teria em vão tentado se evadir, dispor de mãos para possuir uma arma, que lhe daria ao menos o poder de reduzir a Terra à escravidão. Em vez de instrumentos que o teriam levado a todos os tesouros terrestres, escolheu instrumentos que lhe permitissem apoderar-se desses tesouros.
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A fábula nos conta assim essa história: a Terra dirigiu-se ao Demônio ou ao Espírito criador que percorria a natureza como conquistador: “Deixame meus filhos, que criei, alimento e cuido; por que queres arrancá-los de mim?
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“Está bem, disse ele, Mãe insensata, conserva teu filho, que ele se torne em teu seio um aborto inacabado! Mas ao mesmo tempo terás que suportar a pena de teu louco amor”. E, tomando os dois pés que obtivera em sua violência, fez deles as asas da ave e disse à criança: “Eis as asas com as quais poderias te elevar até o lugar onde te tornarias um anjo. Que tua Mãe viva para sempre no temor, quando bateres asas, quando quiseres ainda lhe escapar”. E quando a criatura experimentou suas asas, quis de fato escapar da mãe; mas esta ainda a retinha firmemente, de modo que podia esvoaçar mas não partir completamente; e a Mãe se alegrou de poder continuar a nutrir e a guardar seu filho, triunfando assim do Demônio. Este ficou furioso, pegou as asas e as transformou em mãos, dizendo então à criança: “Bate em tua Mãe, pois ela não quer que a deixes; obriga-a a dar-te o alimento que antes ela só dava por amor egoísta, e que ela perca essa última consolação, imerecida. Se ela tivesse te deixado partir, não terias mais necessidade de seu grosseiro alimento; habitarias lá no alto, na luz, e serias agora um anjo magnífico”.
O homem cumpre com suas mãos a maldição que o Demônio proferiu contra sua mãe.
- Fechner, Gustav. Da anatomia comparada dos anjos, 1825.